Existem sentimentos que não são considerados muito nobres pelo senso comum. No entanto, não me parece bom viver sem eles. Ambição é um – sem querer mais, você não tem ânimo pra nada –, ira é outro – sem um pouco dele, por menos que seja, não se tem uma revolva e sem revolta nenhuma, você cai na resignação com facilidade, o que não é sempre uma coisa boa, segundo a minha concepção.
Tem mesmo uma porção de sentimentos assim e não vou elencá-los exaustivamente.
Acontece que ciúme não é um deles. Ciúme definitivamente não é um deles. Francamente, não vejo nada de positivo em ciúme. Ele, na melhor das hipóteses, enche muito o saco. Você fica numa situação muito peculiar e bastante estúpida de querer e não querer ser traído ao mesmo tempo. Quer ser traído sim, porque vive procurando vestígios de traição, vive vendo situações que muitas vezes não existe, vive achando duplos – ou triplos – significados em bilhetes, ligações, etc. E algum artifício psicológico te faz desejar encontrar provas da traição porque não encontrar nada te tornaria num ser muito ridículo, até aos seus próprios olhos. Você quer encontrar prova da traição pra não se diminuir perante os olhos do outro e perante os seus próprios. Em contrapartida, você não quer encontrar nada, porque a certeza te faria sofrer imensamente e ninguém quer sofrer – pelos menos os não-masoquistas. Então, a vida de um ciumento é essa neurose, essa oscilação, essa flutuação de ânimo constante.
Isso tudo sem falar na questão do relacionamento que vai se deteriorando com base na desconfiança. Caçar vestígios de traição é chamar o outro de mentiroso… E não é nada bom ser chamado de mentiroso, mesmo quando se é.
O ciumento quer a posse exclusiva do outro, tanto do corpo quanto da mente, da atenção. Quando, por exemplo, uma mulher não quer que o maridão saia com os amigos, pode até alegar que é porque esses são xavequeiros e vão induzir o cara a xavecar também. Mas nada! A verdade é que ela não quer dividir o cara com ninguém, nem física e nem psicologicamente. O ciumento tolhe a liberdade de ir e vir… Tolhe toda a liberdade individual, pra falar a verdade. Sua melhor arma é o amor que o outro tem por ele: se me ama, não vai fazer X.
Eu posso dizer com toda segurança que não sou uma mulher ciumenta. Nem um pouco. Já tive meu momento de ciúme nessa vida, uma única vez. Esse ciúme levou à morte minha filha ainda não nascida e poderia ter me levado também: vi o cretino que gerou, na época um noivo, beijando outra, não só na minha frente como também na frente de toda a minha faculdade. Eu estava no quarto mês de gravidez… Tive um quase surto psicótico e sofri um aborto espontâneo menos de uma semana depois.
Depois desse dia, jurei a mim mesma: ciúme, nunca mais!
Apesar disso, muita gente ciumenta cruzou meu caminho sentimental. Mas isso é matéria pra outra postagem.
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O que mais amo na Clara é o fato de ela saber (e ter me dito isso mesmo antes de estarmos envolvidas sexualmente) que duas pessoas na vida de uma não vêm a concorrer, mas a se completarem e que o amor tem milhares de caras, sendo que cada pessoa desperta uma diferente. Você é demais, Clara!